Necessidades alimentares e a importância do uso de iscas proteicas e outras ferramentas no controle de formigas domésticas

As formigas domésticas são onívoras e, dentre os alimentos preferenciais, destacam-se insetos e aracnídeos vivos ou mortos, carcaças de aves ou pequenos mamíferos, gorduras, açúcares e demais comidas humanas.

Dentro dos ninhos, as operárias distribuem os nutrientes para as outras por trofalaxia, que é o processo de regurgitação do alimento, quando uma formiga transfere para a outra via oral o alimento líquido que se encontra dentro do seu próprio tubo digestivo.

Nas colônias de formigas doceiras, as larvas (cria) possuem um papel fundamental na alimentação das operárias, pois conseguem digerir as proteínas.

As formigas adultas alimentam-se de líquidos, mas oferecem proteínas sólidas como alimento diretamente para larvas e, em troca, recebem os nutrientes através da ingestão das secreções produzidas por elas.

A preferência alimentar das colônias de formigas está intimamente relacionada com a produção de crias.

Os transportes humanos permitiram imensa dispersão das pequenas espécies para longas distâncias, assim como a migração com grande facilidade.

As espécies de formigas caseiras ou doceiras que ocorrem nos ambientes urbanos vivem em íntima associação com o homem.

Nos ambientes urbanos há inúmeros locais para a construção dos ninhos, em sítios domiciliares e peridomiciliares:

Interiores (dentro de casas e prédios):

  • Frestas e fendas: rodapés, azulejos quebrados, vãos em portas e janelas.
  • Móveis e equipamentos: atrás de fogões, dentro de armários, gavetas, nichos de eletrodomésticos, vãos de painéis de TV e telefones.
  • Estruturas elétricas: conduítes, tomadas, interruptores e caixas de luz, locais que oferecem proteção e calor.
  • Forros e telhados: áreas altas e secas, especialmente durante períodos de chuva.

Exteriores (áreas externas e arredores):

  • Solo e jardins: quintais, vasos de plantas, sob pedras, cascas de árvores e madeira morta.
  • Estruturas de concreto: debaixo de calçadas, passeios, muros e rachaduras no cimento.
  • Espaços vazios: áreas abertas entre paredes ou no solo que oferecem abrigo contra predadores.

Características biológicas das espécies predominantes nos ambientes urbanos.

As formigas são insetos que apresentam características de sociedades verdadeiras (eussocialismo), que são:

  • Cuidado com a prole (crias);
  • Sobreposição de gerações (genitores e filhotes no mesmo ninho);
  • Casta reprodutiva (rainha e macho) e casta estéril (operárias e soldados).

As formigas urbanas, domésticas ou doceiras são constituídas por um grupo de aproximadamente 20 a 30 espécies.

Estas espécies são unicoloniais, isto é, caracterizadas pela ausência de comportamento agressivo entre indivíduos de diferentes ninhos que ocorrem numa determinada área.

Também pode-se verificar forte agressividade interespecífica (entre indivíduos de espécies diferentes).

Poliginia é bastante observada nestas espécies, quando muitas rainhas podem conviver numa única colônia.

Principais medidas para controle das formigas domésticas.

Para o controle das espécies urbanas, as iscas tóxicas são as mais adequadas, uma vez que entram no ciclo alimentar da colônia e têm lenta absorção.

A ação das iscas deve ser retardada, agindo mesmo em baixas concentrações, e ter atividade cumulativa por ingestão.

O uso de iscas também requer menos trabalho na inspeção da propriedade porque os locais dos ninhos não são tratados diretamente.

As iscas formicidas exploram o comportamento social das formigas e o comportamento de passar alimento de um indivíduo para outro, o que dissemina o princípio ativo para toda a colônia, garantindo contaminação e eliminação das rainhas e dos formigueiros.

É fundamental o desenvolvimento de iscas com diferentes formulações, que sejam atraentes e atendam às necessidades nutricionais das formigas-praga.

As proteínas são preferidas durante o pico de produção de ovos e desenvolvimento larval, enquanto os adultos consomem principalmente carboidratos.

Os fatores que afetam o desempenho das iscas formicidas variam de acordo com:

  • Espécie de formiga a ser controlada;
  • Formulação da isca;
  • Necessidades nutricionais da colônia;
  • Tipo de princípio ativo utilizado;
  • Época do ano.

O uso de iscas formicidas é um método altamente eficaz e comum para o controle de formigas urbanas, tanto as espécies que estão instaladas em locais intradomiciliares quanto peridomiciliares, pois o objetivo é eliminar a colônia inteira, incluindo a(s) rainha(s).

O princípio básico é que as formigas operárias carreguem a isca, que contém um atrativo e um inseticida de ação lenta, para dentro do ninho.

Iscas formicidas em formulação Gel:

  • Destinado para formigas doceiras nos ambientes residenciais;
  • Ideal para infestações internas;
  • Iscas com maior concentração de açúcares e carboidratos;
  • Aplicação: colocar pequenas gotas nos locais de passagem, trilhas, atrás de pias, armários, rodapés e azulejos;
  • Recomendação importante: é fundamental que o inseticida seja de ação lenta para que a formiga tenha tempo de levar o produto para a rainha antes de morrer;
  • Controle contínuo: se a infestação persistir, a reaplicação pode ser necessária após 60 a 90 dias.

Iscas formicidas em formulação sólido microgranulado:

  • Destinado às espécies que vivem no peridomicílio e interior da residência;
  • Maior teor proteico nas iscas;
  • Aplicação: deve ser feita nos locais próximos às trilhas ou orifícios de entrada do ninho;
  • Quantidade: geralmente de 1-2,5 g por ninho;
  • Recomendação: não tocar nas iscas com as mãos para evitar que o odor humano afaste as formigas.

Espécies de formigas urbanas e seus hábitos alimentares e comportamentais:

Formiga-fantasma – Tapinoma melanocephalum

Fonte: Mississippi Entomological Museum

Habitat: locais com alta umidade e temperatura: casas, apartamentos, restaurantes, hospitais e estufas (ambientes internos), além de fendas nas rochas ou debaixo de pedras (exterior).

Comportamento: formiga invasora de distribuição mundial; colônias pequenas, poligínicas; movimentos muito rápidos e erráticos; mudam rapidamente os ninhos de lugar e podem separá-los em vários locais dentro do ambiente.

Preferências alimentares: doces, insetos mortos, carnes, quaisquer alimentos humanos.

Formiga-argentina – Linepithema humile

Fonte: Insect Images

Habitat: zonas florestais, matos costeiros, zonas arenosas e argilosas, pastos, áreas agrícolas, zonas ribeirinhas, habitats perturbados, zonas urbanizadas, estruturas humanas, parques e jardins.

Comportamento: formiga invasora muito bem-sucedida de distribuição mundial; poligínicas; bastante agressivas para as presas e competidoras, defendendo ativamente o território; recrutam operárias rapidamente, formando “trilhas” bastante visíveis. Baixa agressividade intraespecífica, podem formar supercolônias.

Preferências alimentares: insetos vivos ou mortos, melada produzida por pulgões e cochonilhas, néctar, botões florais, ovos e alimentos humanos.

Formiga-louca – Paratrechina longicornis

Fonte: Wikipedia

Habitat: peridomiciliar: caixas de inspeção de esgoto, gás e rede elétrica, cavidades em paredes e telhados de casas, sob o piso e no jardim, sob folhas e pedra e em cavidades do tronco de árvores. No interior dos domicílios, principalmente em fendas nas paredes.

Comportamento: andam irregularmente, quase em semicírculos; trilhas com numerosas operárias, grandes colônias (1 mil a 3 mil operárias), poligínicas (10 a 30 rainhas). Podem ter comportamento de defesa agressivo e expelir ácido fórmico.

Preferências alimentares: aracnídeos e insetos mortos, líquidos adocicados, honeydew (melado produzido por outros insetos).

Formiga-carpinteira – Camponotus spp.

Fonte: Ants biology Utah.edu

Habitat: nidificam em galhos e troncos de árvores vivas ou mortas, solo, cupinzeiros abandonados, madeiramentos em decomposição e de casas, praticamente em todos os materiais fabricados em madeira, também em equipamentos elétricos.

Comportamento: hábito noturno (com exceções), constroem ninhos satélites em locais próximos; podem ser monogínicas ou poligínicas. Forrageiam em grande quantidade de fontes, monopolizando-as. Alimentos proteicos são bastante atrativos, originando uma mobilização explosiva de operárias e soldados. Podem ter comportamento de defesa agressivo e expelir ácido fórmico.

Preferências alimentares: açúcares, néctar, honeydew (melada substância adocicada secretada por insetos sugadores), insetos, aves mortas, gorduras, dentre outros alimentos.

Formiga – Lavapés – Solenopsis sp.

Fonte: Ant Check

Habitat: ninhos muito próximos das habitações humanas, ocasionando acidentes com grande frequência; nidificam em florestas tropicais, áreas perturbadas, desertos, pastagens, ao longo de estradas e edifícios e até em equipamentos elétricos.

Comportamento: colônias podem ser muito grandes e as forrageiras são agressivas e numerosas; também denominadas de formigas-de-fogo, devido à intensa sensação de queimação causada por suas picadas. Monogínicas.

Preferências alimentares: mamíferos mortos, insetos (moscas, larvas e pupas e cupins), minhocas e alimentos sólidos, como sementes. Tem preferência por alimentos líquidos, como néctar ou melada (honeydew).


Texto elaborado por:

Priscila Cintra Socolowski
Bióloga, Mestre e Doutora em Zoologia, com Pós-Doutorado em Biologia Celular e Molecular, e ampla experiência prática na área de controle de animais sinantrópicos em ambientes urbanos.

Marcos Takeaki Dias Monma,
Engenheiro agrônomo, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV, e grande experiência como diretor de instituições laboratoriais e indústrias de produtos domissanitários, atual CEO da TAPINOMA.